O que me traz aqui, contudo, é o desejo de compartilhar.Vez ou outra, sinto essa vontade. As folhas do caderno emprestam aos meus raciocínios a vastidão do céu. Uma folha em branco, bem ouvi dizer certa vez de um amigo, que são um mar de possibilidades para eu me perder e, por essa mesma razão, me encontrar. Centenas de milhares de palavras combinadas com ou sem sentido para mim- ou para quem ler- podem ser desperdiçados, pois se há um privilégio em usar as palavras é sua inesgotabilidade de encaixes; não daria tempo durante a vida de conhecer o que ela é de verdade. Mas de tanto se esforçar, de brincar, de brigar com as palavras, a gente toca um pouco do seu infinito, e se encanta.
Por essa razão é que retorno a este espaço tão pequeno, tão meu. Tão permeado de coisas gerais e patéticas. Tão recheado de particularidades do meu próprio mundo- pois tenho uma facilidade absurda de achar profissão para lagartixas, ciúme para girassóis e margaridas e conversa fiada para formigas, já provei. Fui ensinada na escola do seu Manoel desde quando me bati com as Letras.Aliás, foi lá que tudo começou a fazer sentido. Fez sentido o direito e suas lacunas; fez sentido o sertão do meu coração; fez sentido o plural de que não é sertão, mas sim Sertões, e que "viver é muito perigoso". Fez sentido saber um lugar de valorizar abandonos, e neles ver brotar
jardins incríveis; e entender que flor leva um tempo pra desabrochar; que borboleta faz força para sair do casulo, e que tudo que é natural tem selvageria, tem dor, tem vida e mistério, a gente é que tenta dizer que não com a nossa forma sintética de re-construir o mundo.
Por essas coisas, voltei aqui.