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sábado, 29 de setembro de 2012

O brinquedo mais importante do mundo.

Que não estava para atenções, eu já dizia isso de antemão. Tinha lá os meus negócios para cuidar, e assim o fiz. Nada de pensar em sustentar os grãos na geladeira nem armazenar nada para os outros dias, e depois e depois. Era vão.

O importante era me ocupar de prestar atenção em cada coisa importante, em cada íntimo movimento ordinário. Afinal, um conjunto deles dá uma alteração cósmica, e faz algo extraordinário acontecer, que quem sabe no Japão ou em qualquer outro lugar do planeta se entenda? Sei, que esta teoria fez com que eu me sentisse culpado, por vezes, com notícias de terremotos, maremotos e coisas tais.

Eu sempre me apegava a uma responsabilidade, que cismado, eu achava mesmo que poderia ser minha, nem que minimimamente. Comecei a prestar atenção em tudo. No jeito que o sol chegava e ía embora. Como eu escovava os dentes todos os dias, se havia uma certa diferença eu começar a correr a pista do lado esquerdo ou direito, em que horas eu colocava o lixo na lixeira, em com que frequencia era necessário limpar o meu nariz, quantas vezes eu precisava ir ao banheiro, e quantas pitadas de sal minha mãe punha na comida.

Meu irmão, de nove anos trouxe para mim, chorando, um boneco eletrônico, que ele havia deixado cair naquele dia. O engraçado, hoje, com esses bonecos é que caindo ou não, uma hora eles param de funcionar. E então, notei uma semelhança na atitude do pequeno. Ele, depositara o boneco em cima de uma mesa, e todos os dias, no mesmo horário, ía lá ver se o boneco voltava a dar o ar de sua presença.

Com dó, resolvi alentar o garoto- mais pelo apreço que ele demonstrava do que por algum interesse meu em bonecos. Nunca tive saúde para bonecos.-, alimentando meio que com alguma esperança que o boneco ressucitasse. Fui lá, abri o corpinho do brinquedo com uma chave de fenda, e tentei arrumar os fiozinhos. Eu achava que podia fazer alguma coisa em relação aquilo, mas a realidade é que eu não fazia a menor idéia do que estava fazendo.

Não chegou a dar certo. No princípio o boneco que falava algumas frases curtas, despertou, mas falando em ruídos. Grande era a frustração. Meu irmão chorava o dia inteiro, e fiquei pensando se ele não se recuperaria daquele trauma. Afinal, "continuaria seu bonequinho trocando as frases? Será que eu desarranjara o pequenino brinquedo?". Era insuportável ver meu pequeno irmãozinho comovido daquela forma. Por fim, pusemos o boneco num cantinho deitado com suas perninhas e bracinhos molengos.
 Ele estava cansado, era a realidade.

Naquela mesma semana chamei meu irmão para ver os noticiários. Vinha anunciando na Tv um grande feito que um homem bom realizara na cidade onde morávamos, e daí compartilhei minha teoria. Atei os pontos: "o boneco deixou de existir, um grande feito fora realizado na cidade. É claro que alguma atribuição se devia ao bonequinho quebrado, no fato de aquela coisa boa toda, anunciada, ter ocorrido. Com certeza. Foi isso o que aconteceu". Eu repetia: "Foi isso!". Meu irmão sorria, concordando.

E assim, meu irmão achou seu boneco o brinquedo mais importante do mundo, e deixou que ele descansasse em paz, molengo, lá no canto.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Manoel é um poeta sacana


Manoel é um poeta sacana. Parece que ele sempre está dizendo que tudo o que gastamos demasiadamente nossas forças é em vão, porque o que realmente importa são as coisas menores. E assim, eu fico um pouco constrangida, por pensar que as coisas simples precisam ser tratadas com mais compromisso, e que são poucos os que dão a elas o seu devido valor. O que eu senti de mais importante lendo Manoel é que ser chamado de inútil não é uma ofensa, é um elogio ( desde que se tenha compromisso! Afinal, "Repetir repetir - até ficar diferente.Repetir é um dom do estilo." E isso não é para qualquer um. É necessário ter muita disciplina para chegar ao ponto de enxergar que "formigas carregadeiras entram em casa bunda", e que "o esplendor da manhã não se abre com faca". É importante apurar os sentidos para essa coisa toda).

" Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado, ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter. "

Manoel de Barros