Que não estava para atenções, eu já dizia isso de antemão. Tinha lá os meus negócios para cuidar, e assim o fiz. Nada de pensar em sustentar os grãos na geladeira nem armazenar nada para os outros dias, e depois e depois. Era vão.
O importante era me ocupar de prestar atenção em cada coisa importante, em cada íntimo movimento ordinário. Afinal, um conjunto deles dá uma alteração cósmica, e faz algo extraordinário acontecer, que quem sabe no Japão ou em qualquer outro lugar do planeta se entenda? Sei, que esta teoria fez com que eu me sentisse culpado, por vezes, com notícias de terremotos, maremotos e coisas tais.
Eu sempre me apegava a uma responsabilidade, que cismado, eu achava mesmo que poderia ser minha, nem que minimimamente.
Comecei a prestar atenção em tudo. No jeito que o sol chegava e ía embora. Como eu escovava os dentes todos os dias, se havia uma certa diferença eu começar a correr a pista do lado esquerdo ou direito, em que horas eu colocava o lixo na lixeira, em com que frequencia era necessário limpar o meu nariz, quantas vezes eu precisava ir ao banheiro, e quantas pitadas de sal minha mãe punha na comida.
Meu irmão, de nove anos trouxe para mim, chorando, um boneco eletrônico, que ele havia deixado cair naquele dia. O engraçado, hoje, com esses bonecos é que caindo ou não, uma hora eles param de funcionar. E então, notei uma semelhança na atitude do pequeno. Ele, depositara o boneco em cima de uma mesa, e todos os dias, no mesmo horário, ía lá ver se o boneco voltava a dar o ar de sua presença.
Com dó, resolvi alentar o garoto- mais pelo apreço que ele demonstrava do que por algum interesse meu em bonecos. Nunca tive saúde para bonecos.-, alimentando meio que com alguma esperança que o boneco ressucitasse. Fui lá, abri o corpinho do brinquedo com uma chave de fenda, e tentei arrumar os fiozinhos. Eu achava que podia fazer alguma coisa em relação aquilo, mas a realidade é que eu não fazia a menor idéia do que estava fazendo.
Não chegou a dar certo. No princípio o boneco que falava algumas frases curtas, despertou, mas falando em ruídos. Grande era a frustração. Meu irmão chorava o dia inteiro, e fiquei pensando se ele não se recuperaria daquele trauma. Afinal, "continuaria seu bonequinho trocando as frases? Será que eu desarranjara o pequenino brinquedo?". Era insuportável ver meu pequeno irmãozinho comovido daquela forma. Por fim, pusemos o boneco num cantinho deitado com suas perninhas e bracinhos molengos.
Ele estava cansado, era a realidade.
Naquela mesma semana chamei meu irmão para ver os noticiários. Vinha anunciando na Tv um grande feito que um homem bom realizara na cidade onde morávamos, e daí compartilhei minha teoria. Atei os pontos: "o boneco deixou de existir, um grande feito fora realizado na cidade. É claro que alguma atribuição se devia ao bonequinho quebrado, no fato de aquela coisa boa toda, anunciada, ter ocorrido. Com certeza. Foi isso o que aconteceu". Eu repetia: "Foi isso!". Meu irmão sorria, concordando.
E assim, meu irmão achou seu boneco o brinquedo mais importante do mundo, e deixou que ele descansasse em paz, molengo, lá no canto.
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sábado, 29 de setembro de 2012
terça-feira, 20 de outubro de 2009
II- Chanson

A Aurora, que conhecia Chanson até a última linha de pauta, percebeu haver algo estranho pairando por dentro dele. Seu som que era de sempre o mais audível, parecia naquela manhã, um mio de gato solto-acanhado.
Sempre que Chanson dava sua música, e de bom grado recebiam, nascia mais notas na sua cabeça, e o menino esbanjava, de então, uma vasta cabeleira musical. Mas, como Aurora percebeu,- e Chanson fazia-se notar- o menino vinha ficando calvo e amuado, com música lenta e simples[ nos bons dias, eram bem compostas, aliás.]
Então, Aurora ficou preocupada demais. Ela precisava de toda pompa para chegar todos os dias. Chanson estava com semblante de ai-meu-deus, e mal apreciava a amiga[que se apresentava de raiar], mas ele não conseguia prestar atenção. Nada adiantava.
No dia seguinte Aurora deu lugar a Chuva-triste, e Chanson se sentiu cheio de culpa. As trovoadas riam curto e fino dos cabelos ralos, que diminuíam rapidamente, em Chanson.
O menino continuava refletindo se dava nota ou não para alguém que passasse por perto, mas desistiu muitas vezes- porque nos dias chuvosos as pessoas parecem mais pra dentro do que pra fora- , e Chanson fazia cara de não-saber quando lembrava que precisava trazer Aurora de volta.
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