
Chanson
Sempre à noite Chanson passeava pelas ruas saídas e sem gente, entre cambalhotas, piruetas e assobios. Ele era mesmo bom nisso, e conseguia ainda fazer tudo junto.
Quando perguntavam - "como você faz coisas tão ao mesmo tempo assim?"-, Chanson respondia:"no mundo pós-moderno precisamos ser proativos", e ninguém mais ousava contestar frase bem feita como aquela.
Na verdade, Chanson não sabia o que era pós-moderno, e nem proativo, e aquela tinha sido uma frase que uma vez ouviu alguém dizer num museu de mobiles [aliás, Chanson adorava mobiles]. Achou que era boa a frase, e se fez dela; sua resposta de sempre.
Ele tinha cabelo de notas musicais. Isso não se explica. Só vendo mesmo para achar tão bonito, como realmente era. Sempre que passava uma criancinha ao seu lado, Chanson tirava uma nota da cabeça[ como quem arrancasse um fio de cabelo], e dava de presente. Mas Chanson parou com isso, pois sempre acontecia de um pai zangado tirar a música das mãos do filho, e jogar na lixeira.
O menino dos cabelos musicais se entristecia de ver sua música tão daquela criança dentro da lixeira, apesar de a música deixar até mesmo ela mais bonita[a música se tornava lixeira, então].
De manhã, Chanson tirava muitas notas da cabeça para a Aurora chegar. Ele era todo solfejo, depois, todo melodia. Era harmonioso de alguém com espera. Ele gostava de deixar a Aurora mais bem anunciada, e de ficar olhando bastante pra ela[ que ficava sem jeito com tanta poesia].

