quinta-feira, 23 de julho de 2009

I Chanson


Chanson

Sempre à noite Chanson passeava pelas ruas saídas e sem gente, entre cambalhotas, piruetas e assobios. Ele era mesmo bom nisso, e conseguia ainda fazer tudo junto.

Quando perguntavam - "como você faz coisas tão ao mesmo tempo assim?"-, Chanson respondia:"no mundo pós-moderno precisamos ser proativos", e ninguém mais ousava contestar frase bem feita como aquela.

Na verdade, Chanson não sabia o que era pós-moderno, e nem proativo, e aquela tinha sido uma frase que uma vez ouviu alguém dizer num museu de mobiles [aliás, Chanson adorava mobiles]. Achou que era boa a frase, e se fez dela; sua resposta de sempre.

Ele tinha cabelo de notas musicais. Isso não se explica. Só vendo mesmo para achar tão bonito, como realmente era. Sempre que passava uma criancinha ao seu lado, Chanson tirava uma nota da cabeça[ como quem arrancasse um fio de cabelo], e dava de presente. Mas Chanson parou com isso, pois sempre acontecia de um pai zangado tirar a música das mãos do filho, e jogar na lixeira.

O menino dos cabelos musicais se entristecia de ver sua música tão daquela criança dentro da lixeira, apesar de a música deixar até mesmo ela mais bonita[a música se tornava lixeira, então].

De manhã, Chanson tirava muitas notas da cabeça para a Aurora chegar. Ele era todo solfejo, depois, todo melodia. Era harmonioso de alguém com espera. Ele gostava de deixar a Aurora mais bem anunciada, e de ficar olhando bastante pra ela[ que ficava sem jeito com tanta poesia].

quinta-feira, 18 de junho de 2009

meias, cafunés, e saudades


Esses dias eu estive vendo algumas fotos antigas com a minha mãe. Fotos bem antigas da minha avó, da minha infância, das nossas vidas.

Eu não tenho muito apego a essas coisas, normalmente, mas comecei a lembrar. Engraçado é que venho pensando muito nisso, e um dia sonhei com ela.

É estranho sonhar assim. Você acorda e a pessoa já não existe mais! No sonho minha avó estava como sempre esteve. De roupas de vó, aqueles olhinhos de abóbora, com jeitinho de boa gente, e com aquela voz minúscula. Perto dela tinha meu pedaço de pudim, tinha os potes de maionese pra eu brincar de comidinha[ela guardava pra que eu e minha primas pudéssemos brincar], tinha também o canteiro de rosas que ela gostava[e eu estragava], e um monte de coisas que me deixaram de coração mole. Lembrei das minhas implicâncias com ela também.[ Eu fui uma criança bem implicante].

Li, "
a saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam", e senti como se eu tivesse encontrado um pedaço valioso disso. O problema foi que quando acordei, senti tê-lo perdido outra vez. Isso acontece sempre. Quantas vezes eu sinto um cheiro, e fico tentando me lembrar de onde conhecia....quando acho que lembro, o cheiro já passou, e a lembrança escapou pelos meus dedos! [são bem escorregadias as lembranças].

Não estou para clarezas hoje....

Alma
pedaço de um abraço
[uma memória]
Cheiro de outras partes da vida
esparramadas pela lembrança
[de outras partes de mim]

dos meus brinquedos de madeira
da comida da vizinha
do meu pai indo viajar
da volta às aulas
dos meus amigos do primário
de ontem
e de ainda agora.......

domingo, 14 de junho de 2009

uma gota.


" ser rasa"- é o desejo de uma gota d'água que veio do fundo do mar. Ela entendeu, de verdade, as conseqüências do peso da profundidade...e não se arrependeu, porque é preciso se estar vazio pra ser cheio do que é bom.

(ser poesia, Fernanda Telha)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

pensamento penoso.


vê a rosinha: nasce, dorme, acorda- macia. Ela é pétala, espinho; fura o dedo de quem toca, e se embeleza com sua saia rodada de flor[travessa]. Ela é avesso, risonha, verso...e espera o tempo passear apressado. Dança com o vento para muitas direções,- sem compromisso, despreocupada, diversa- e roda com o sol girando o lento do dia por cima de si e dele. Faz isso,e é mais. Ela é naturalmente nítida,[presença]- e depois de três dias ou quatro, dorme sempre e não dança mais de sonhos; descansa.




de 27/04/2009.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tapeceiro



"Tapeceiro
Não se engana
Sabe o fim desde o começo
Trança voltas, mil desvios
Sem perder o fio
Minha vida é obra de tapeçaria
É tecida de cores alergres e vivas
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso
Nem imagina o desfecho
No fim das contas
Tudo se explica
Tudo se encaixa...."

(mas uma do Stênio, que tem palavras bonitas no coração, gratidão na voz, e amor na criatividade.)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

qualquer

qualquer traço linha ponto de fuga
um buraco de agulha ou de telha
onde chova

qualquer perna braço pedra passo
parte de um pedaço que se mova

qualquer

qualquer fresta furo vão de muro
fenda boca onde não se caiba

qualquer vento nuvem flor que se imagine além de onde o céu acaba

qualquer carne alcatre quilo aquilo sim e por que não?

qualquer migalha lasca naco grão molécula de pão

qualquer dobra nesga rasgo risco
onde a prega a ruga o vinco da pele
apareça

qualquer lapso abalo curto-circuito
qualquer susto que não se mereça

qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza

qualquer coisa

qualquer coisa que não fique ilesa

qualquer coisa

qualquer coisa que não fixe


(arnaldo antunes.)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Bachelard!

(...) Quem vive para a poesia deve ler tudo. Quantas vezes, de uma simples brochura, jorrou para mim a luz de uma imagem nova! Quando aceitamos ser animados por imagens novas, descobrimos irisações nas imagens dos velhos livros. As idades poéticas unem-se numa memória viva. A nova idade desperta a antiga. A antiga vem reviver na nova. Nunca a poesia é tão uma como quando se diversifica.
Que benefícios nos proporcionam os novos livros! Gostaria que cada dia me caíssem do céu, a cântaros, os livros que exprimem a juventude das imagens. Esse desejo é natural. Esse prodígio, fácil. Pois lá em cima, no céu, não será o paraíso uma imensa biblioteca?
Mas não basta receber, é preciso acolher. É preciso, dizem em uníssono o pedagogo e a dieteticista, “assimilar”. Para isso, somos aconselhados a não ler com demasiada rapidez e a cuidar para não engolir trechos excessivamente grandes. Dividam, dizem-nos, cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem necessárias para melhor resolve-las. Sim, mastiguem bem, bebam em pequenos goles, saboreiem versos por verso os poemas. Todos esses preceitos são belos e bons. Mas um princípio os comanda. Antes de mais nada, é necessário um bom desejo de comer , de beber e de ler. É preciso ler muito, ler mais, ler sempre."

Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio , Martins Fontes, p.25-26