sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

telha ferreira

desde quando me bati com a literatura do Manoel de Barros, passei a me simpatizar mais com meus sobrenomes: sou uma telha ferreira,- isso me coisifica.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aos 3 anos.

mundão- mundinho
livrão-livrinho
coração-coracinho

"- deixa de graça!" ; dizia minha mamãe.... E eu ria, [com uma boa gargalhada] sabendo do que ela me falava.




obrigada, dona Débora.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

II- Chanson


A Aurora, que conhecia Chanson até a última linha de pauta, percebeu haver algo estranho pairando por dentro dele. Seu som que era de sempre o mais audível, parecia naquela manhã, um mio de gato solto-acanhado.
Sempre que Chanson dava sua música, e de bom grado recebiam, nascia mais notas na sua cabeça, e o menino esbanjava, de então, uma vasta cabeleira musical. Mas, como Aurora percebeu,- e Chanson fazia-se notar- o menino vinha ficando calvo e amuado, com música lenta e simples[ nos bons dias, eram bem compostas, aliás.]
Então, Aurora ficou preocupada demais. Ela precisava de toda pompa para chegar todos os dias. Chanson estava com semblante de ai-meu-deus, e mal apreciava a amiga[que se apresentava de raiar], mas ele não conseguia prestar atenção. Nada adiantava.
No dia seguinte Aurora deu lugar a Chuva-triste, e Chanson se sentiu cheio de culpa. As trovoadas riam curto e fino dos cabelos ralos, que diminuíam rapidamente, em Chanson.
O menino continuava refletindo se dava nota ou não para alguém que passasse por perto, mas desistiu muitas vezes- porque nos dias chuvosos as pessoas parecem mais pra dentro do que pra fora- , e Chanson fazia cara de não-saber quando lembrava que precisava trazer Aurora de volta.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

...



Minha alma de artista

tem espanto; tem encanto
é ouro que se assista
de dentro para fora, um canto

Minha alma de artista
tem assombro; tem ternura
é cor que se desmancha em vista
de sentir na boca, sua doçura

Minha alma de artista
não se investe...
é loucura que se insista
de ficar em mim se preste

Minha alma de artista
bem se cansa...
é uma andança sempre mista
de correr o pensar, descansa



Fernanda Telha


quinta-feira, 23 de julho de 2009

I Chanson


Chanson

Sempre à noite Chanson passeava pelas ruas saídas e sem gente, entre cambalhotas, piruetas e assobios. Ele era mesmo bom nisso, e conseguia ainda fazer tudo junto.

Quando perguntavam - "como você faz coisas tão ao mesmo tempo assim?"-, Chanson respondia:"no mundo pós-moderno precisamos ser proativos", e ninguém mais ousava contestar frase bem feita como aquela.

Na verdade, Chanson não sabia o que era pós-moderno, e nem proativo, e aquela tinha sido uma frase que uma vez ouviu alguém dizer num museu de mobiles [aliás, Chanson adorava mobiles]. Achou que era boa a frase, e se fez dela; sua resposta de sempre.

Ele tinha cabelo de notas musicais. Isso não se explica. Só vendo mesmo para achar tão bonito, como realmente era. Sempre que passava uma criancinha ao seu lado, Chanson tirava uma nota da cabeça[ como quem arrancasse um fio de cabelo], e dava de presente. Mas Chanson parou com isso, pois sempre acontecia de um pai zangado tirar a música das mãos do filho, e jogar na lixeira.

O menino dos cabelos musicais se entristecia de ver sua música tão daquela criança dentro da lixeira, apesar de a música deixar até mesmo ela mais bonita[a música se tornava lixeira, então].

De manhã, Chanson tirava muitas notas da cabeça para a Aurora chegar. Ele era todo solfejo, depois, todo melodia. Era harmonioso de alguém com espera. Ele gostava de deixar a Aurora mais bem anunciada, e de ficar olhando bastante pra ela[ que ficava sem jeito com tanta poesia].

quinta-feira, 18 de junho de 2009

meias, cafunés, e saudades


Esses dias eu estive vendo algumas fotos antigas com a minha mãe. Fotos bem antigas da minha avó, da minha infância, das nossas vidas.

Eu não tenho muito apego a essas coisas, normalmente, mas comecei a lembrar. Engraçado é que venho pensando muito nisso, e um dia sonhei com ela.

É estranho sonhar assim. Você acorda e a pessoa já não existe mais! No sonho minha avó estava como sempre esteve. De roupas de vó, aqueles olhinhos de abóbora, com jeitinho de boa gente, e com aquela voz minúscula. Perto dela tinha meu pedaço de pudim, tinha os potes de maionese pra eu brincar de comidinha[ela guardava pra que eu e minha primas pudéssemos brincar], tinha também o canteiro de rosas que ela gostava[e eu estragava], e um monte de coisas que me deixaram de coração mole. Lembrei das minhas implicâncias com ela também.[ Eu fui uma criança bem implicante].

Li, "
a saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam", e senti como se eu tivesse encontrado um pedaço valioso disso. O problema foi que quando acordei, senti tê-lo perdido outra vez. Isso acontece sempre. Quantas vezes eu sinto um cheiro, e fico tentando me lembrar de onde conhecia....quando acho que lembro, o cheiro já passou, e a lembrança escapou pelos meus dedos! [são bem escorregadias as lembranças].

Não estou para clarezas hoje....

Alma
pedaço de um abraço
[uma memória]
Cheiro de outras partes da vida
esparramadas pela lembrança
[de outras partes de mim]

dos meus brinquedos de madeira
da comida da vizinha
do meu pai indo viajar
da volta às aulas
dos meus amigos do primário
de ontem
e de ainda agora.......

domingo, 14 de junho de 2009

uma gota.


" ser rasa"- é o desejo de uma gota d'água que veio do fundo do mar. Ela entendeu, de verdade, as conseqüências do peso da profundidade...e não se arrependeu, porque é preciso se estar vazio pra ser cheio do que é bom.

(ser poesia, Fernanda Telha)