terça-feira, 25 de outubro de 2011

Manoel é um poeta sacana


Manoel é um poeta sacana. Parece que ele sempre está dizendo que tudo o que gastamos demasiadamente nossas forças é em vão, porque o que realmente importa são as coisas menores. E assim, eu fico um pouco constrangida, por pensar que as coisas simples precisam ser tratadas com mais compromisso, e que são poucos os que dão a elas o seu devido valor. O que eu senti de mais importante lendo Manoel é que ser chamado de inútil não é uma ofensa, é um elogio ( desde que se tenha compromisso! Afinal, "Repetir repetir - até ficar diferente.Repetir é um dom do estilo." E isso não é para qualquer um. É necessário ter muita disciplina para chegar ao ponto de enxergar que "formigas carregadeiras entram em casa bunda", e que "o esplendor da manhã não se abre com faca". É importante apurar os sentidos para essa coisa toda).

" Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado, ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter. "

Manoel de Barros