domingo, 27 de abril de 2014

Fazendo as pazes com o tempo.

Passou sem que eu reparasse, sim.

Escrevo coisas em papéis de extrato de banco, mas não consigo preencher as folhas do meu caderninho, que anda abandonado em algum canto escuro de alguma bolsa que não uso mais. Mas, um desafio....arrumar as idéias. "Não ser uma samambaia", como diria minha irmã mais velha.

E tudo isso se resume em uma questão muito simples; uma questão que eu deixei de reparar; uma questão que mudou uma parte de mim; uma questão que passou despercebida,  e que não levamos a sério; que costuma ser bem pouco valorizada; que escorrega pelas nossas mãos; uma questão: um tempo acelerado e esmagador.

Há algumas semanas eu me queixava de uma dor no peito, e dificuldades de respirar. Cheguei ao médico certa vez com a impressão de que eu estava morrendo. Fiquei muito impressionada com aquilo, afinal, minha família com histórico cardíaco; pensei na minha avó e no meu avó...comecei a sentir muito medo, chorei antecipando resultados. E depois de uns exames (que enquanto não saiam, me enchiam de um pavor paralisante), o médico me disse que eu tinha sintomas de uma doença do nosso tempo, chamada ansiedade

Eu deveria ter mesmo desconfiado. Uma moça de 25 anos, que mal consegue se ver ainda como uma mulher, enfartando? Alívio é a palavra que define. E pude me sentir uma tola, mas com toda a alegria que esse coração saudável poderia sentir.

Mas, por semanas eu deixei de perceber e de juntar pedaços de uma questão evidente. E, por isso, durante essas semanas continuei sentindo o aperto no peito, a vontade de chorar, como se eu estivesse sendo realmente acometida de algum mal. Senti uma solidão profunda no mundo. Senti como se eu tivesse sido jogada no mundo, e como se eu tivesse que lutar todos os dias contra a contingência. Senti como se eu estivesse desvinculada de tudo e todos.

Então, me reparei. Claro que não sozinha, mas pelos olhos ternos dos que andam comigo (feliz ventura a de ter uma familia e amigos que se importam). Sem tempo para escrever ou mesmo apreciar com um pouco mais de calma uma música ao invés de ruídos; para estudar o que eu amo; desiludida com a política, com as pessoas, com a justiça; desmotivada com a igreja que existe (e não como ideal em que devemos permanecer); aborrecida com minhas escolhas; sem nenhuma razão para fazer o eu gostava, antes; reparei. 

"O tempo não volta", hoje mesmo um amigo me lembrou disso. Algo que eu já vinha percebendo; que já vinha me encarando. O tempo em sua aceleração, joga na nossa cara que o amanhã não volta, e estamos sempre correndo atrás dele, ao invés de darmos as mãos pra ele e caminharmos juntos em sintonia, com o necessário para se viver aquele dia. O tempo nos esmaga se deixamos. O tempo vai passando reunindo forças cada dia maiores, que nos levam. É certo que cada dia morremos e nos despedimos de tudo, de cada coisa, de cada pessoa. E isso pode ser triste e desesperador. Acho que isso vinha me entristecendo de uma maneira meio perturbadora.

Mas, pensei e pensei...chegando a conclusão de que existe alguém que domina o tempo, que diz que podemos remí-lo. Que nos coloca sob uma perspectiva muito melhor sobre a vida e a morte; que  nos enche de razão para viver, que nos ensina a perdoar, que deixa que a gente até chegue a se desiludir (porque quer que sejamos lúcidos!), que nos dá novos motivos quando perdemos aqueles que faziam a gente lutar antes, que nos enche de contentamento por vermos um passarinho (que existe profundamente dentro de um canto inocente) ao invés de vermos dinheiro numa conta bancária (afinal, dinheiro é um sistema criado pelo homem. Só faz falta porque insistimos nele).  Pensei em Deus, e busquei comunhão com Ele.

Eu não quero mais brigar com o tempo. Não quero sentir mais a raiva que eu vinha tendo dele (por me fazer apressada). Vou andar com ele, no compasso leve de quem teve um fardo tirado das costas e agora pode caminhar melhor. Os fardos dificultam nossa caminhada, e o tempo não pode parar, o que faz com que nem sempre a culpa seja dele. Resolvi que vou andar com ele, vivendo a jornada da maneira mais bonita que eu puder. Agora, com menos ilusões eu também consigo ver melhor o caminho. 

Fiz as pazes com o tempo, e vamos ver no que vai dar. No coração, uma alegria pela proximidade de um Deus que me ensinou o amor simbolizado na sua ressurreição, que lança fora meus medos. Uma paz que me transborda e me excede. Uma confiança de que dias melhores estão por vir, apesar das dificuldades. Um carinho maior pelos meus. A vocação de sede pela justiça. E uma prioridade: amar a Deus sobre todas as coisas e ao meu próximo como a mim mesma.

Minha alegria é viver pelos olhos do Deus de amor.