sábado, 6 de dezembro de 2014
Síndrome do Coelho de Alice no País das Maravilhas
“É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”.
Estou atrasada! Tomo café....."estou atrasada".
Começo a trabalhar/estudar/escrever.."estou atrasada". Vou ao shopping comprar uma roupa para ser madrinha em um casamento,"estou atrasada". Começo assistir um filme "estou atrasada". Estou reunida com minha família, "estou atrasada!" Estou dormindo..."estou atrasada".
Comecei a pensar se eu realmente estava atrasada para as minhas tarefas, (e isso representaria que eu utilizo muito mal o meu tempo) ou se tenho uma sensação de urgência patológica em relação as coisas (e por isso a sensação de atraso permanente). Ah, comecei a questionar também se as coisas não 8 ou 80, são pretas ou brancas. Se poderiam existir mais respostas, como por exemplo, o tempo ser relativo e estar passando mais depressa (não!), ou se eu dormi e fui de alguma forma contaminada pelo mesmo vírus que fisgou o coelhinho branco de Alice no país das maravilhas (a mais óbvia pra mim, claro!).
Acho que temos a resposta, não é verdade? Sim, a última opção!!! Não falamos mais sobre isso (para não ter que dar o braço a torcer de que existe um problema no fundo disso tudo. Meus amigos com imaginação fértil entendem sobre o leve hábito de culpar até papai novel pelos mais simples problemas cotidianos. No meu caso....o problema moderno do "avanço" que nos redimensiona e nos compacta, está mais em Alice do que em nós mesmos, rs! Não é verdade... Apenas uma brincadeirinha!).
A realidade é muito dura. Eu gostaria de não me sentir comprimida por ela. Gostaria de ter mais espaço, e saborear meu almoço sem pensar que daqui a pouco tenho que sentar para escrever. Sem pensar que estou correndo uma maratona interminável, onde não avisto a linha de chegada, e que já não sinto tanto as dores da corrida, porque me condicionei a ela (mas que independente disso, uma hora o corpo falha, pois não podemos correr pra sempre, e descansar também faz parte).
Então, comecei a orar nesse sentido, porque meu perfeccionismo me dói; me atinge de maneira profunda. Sinto um medo tão grande de fracassar em algum aspecto, que às vezes não consigo fazer coisas simples, como conversar com pessoas (porque eu tenho medo de falar besteiras, de estar errada sobre alguma coisa - e, talvez, o blog seja um tipo de exercício para eu aprender a me expor de alguma forma (agora você entendeu?).
Finalmente, aprendi algumas coisas e gostaria de compartilhar com você (porque talvez, ninguém tenha te falado, como ninguém nunca falou para mim. Vivo num mundo diferente de quem sou, mas aprendi que não preciso me conformar a ser o um produto do meio! No meu mundo - e por meio de muitas pessoas com quem eu convivo -, você precisa ser infalível, você precisa mostrar que sabe e conhece tudo. Você não tem fraquezas. Você não pode ser ridículo às vezes. No meu mundo você precisa passar credibilidade, ser forte e saber separar as coisas (como se o ser humano pudesse se fragmentar em caixinhas). No meu mundo você precisa falar de forma que passe segurança (ainda que minhas mãos estejam trêmulas) e você precisa também ser a pessoa que irá resolver os problemas, e você precisa ser um referencial para resolvê-los (mesmo quando você não sabe abrir o pote de alcaparras em casa). No meu mundo você precisa ter lido Hobbes, Locke, Spinoza, você precisa conhecer as telas de Rembrandt(ainda que eu tenh apreço especial por aquela do barco no mar revolto) , ouvir música clássica, você deve ter lido os clássicos gregos. Você precisa ser prolixo (mesmo que você tenha um apego pelo sucinto, pelo objetivo). Você precisa sempre ter alguma coisa para dizer, alguma coisa que você tenha achado "brilhante", "fantástico" (quando você gosta de guardar suas impressões apenas para você, especialmente aquilo que você encontrou como um grande tesouro, e realmente não existe palavras que o descrevam, pois "fantástico" é muito pouco).Você precisa conhecer os doutrinadores mais ortodoxos (mesmo que o mundo tenha mudado e se flexibilizado bastante, e você não entenda o que diz o Caio Mario). Você precisa ser o "entendido" de todos os assuntos. Você precisa falar em inglês, francês e espanhol (ainda que eu não saiba dizer dos meus abismos nem em português!).
Ah, esqueci de contar o que aprendi. Vamos lá. Sobre a ótica de um Deus de amor, eu aprendi que posso ser quem eu quero/ ou quiser, pois nEle sempre vai existir alguém que me ama como eu sou (uma pessoa que "pensa por imagens", que ama poesia, mais do que prosa; que lida com as pessoas pelo que elas são, e não se importa de verdade com o que elas tem (mas que se irrita com o que elas fingem ser), que tem um apreço por passarinhos, que sente um grande apego pelos instantes (por isso ama Cecília), que se absurda com o cotidiano, que chora do nada porque achou a cor daquele dia muito bonita e especial, que não liga pra roupas bonitas (e não sabe o que é bonito, quando se fala de estética), que não pinta as unhas (porque gosta de unhas na cor de unhas).
Perdi o fio outra vez...verdade...aprendi sobre um Deus de amor, como eu falava antes. Aprendi a viver sob a ótica dele, para olhar as pessoas, para entender o direito, para cuidar do que tenho recebido dEle.
Eu tenho amado mais os momentos, e tenho tentado me desprender de toda essa "perfeição" subjetiva, que mais está nas expectativas e especulações do que propriamente naquilo que me constitui, e que me pertence.
Tenho aprendido a ser grata, e a me sentir contente, porque eu também andava me sentindo culpada, toda vez. Sempre muito culpada por não estar fazendo o que eu "deveria estar fazendo". E assim, voltamos à perfeição subjetiva. Tenho aprendido a dar valor aos dias como uma benção recebida, porque amanhã podemos não estar mais aqui(já imaginou? O último dia aqui na Terra, sendo um dia de murmurações pelos afazeres desesperados?). Tenho dado graças logo quando acordo (como tenho aprendido com um amigo e pastor), acordar e dar graças antes mesmo de levantarmos faz com que sintamos a presença de Deus. Isso tem resignificado minhas semanas.
Ainda sinto tudo o que eu sentia. É uma luta diária, pois têm dias que me esqueço dessas coisas, e minhas batalhas me vencem. MAS! Tenho aprendido que quanto mais me aproximo de Deus, mais me sinto afastada com relação ao que os meus medos representam. É como pensar no Universo, e se sentir uma poeira cósmica. É como pairar diante de tudo isso e se perguntar em escala correta, qual o tamanho dos meus problemas diante de todas essas coisas. Pensar assim me faz ter a esperança que tudo o que pensamos ser definitivo, não é assim, finalizado com um ponto final. Que existe jeito para as coisas. Que se as coisas não tem remédio, remediadas estão! E que a gente pode se reconstruir e se reinventar, porque Deus é um exímio construtor de vidas, e Ele pode nos ajudar sempre.
Finalmente, eu queria dizer que esse último mês do ano, está sendo muito duro para mim. Sim, tenho um desafio grande à frente. Mas queria compartilhar que não importa quão duras as coisas sejam, Deus está perto!Queria dizer também que tenho recebidos provas diárias do amor de Deus por mim, e pensar nEle tem aliviado o fardo.
Por isso, deixo as palavras que tem aquecido meu coração e um carinho a você que está lendo. Palavras que eu tenho conhecido o sentido, apenas agora, apesar de tê-las ouvido algumas vezes.
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e meu fardo é leve."
Mateus 11:28-30
"Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É inescrutável o seu entendimento.
Dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.
Os jovens se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão;
Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão."
Isaías 40:28-31
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Um comentário:
Telhinha, consigo te entender, entender o seu raciocínio, mas permita-me ser o chato - como sempre.
Posso estar enganado, mas a minha percepção é que você tá tentando ver o lado bom da crise, ao invés de focar numa mudança de paradigma que pode de fato acabar com ela.
De repente refletir mais acerca da pós-modernidade e do quanto ela se aproxima ao "Carpe Diem" de alguma forma.
Por exemplo, uma solução filosófica possível pra sua crise é acabar com o "ideal". A meta é o processo.
O capitalismo foi enraizando na gente essa ilusão de que temos que evoluir sempre, conquistar mais, ter mais, ser mais. A meu ver essa é de fato a fonte da crise. Derrubar ou pelo menos criticar esse "way of life" pode ser fundamental para ter uma vida mais lenta.
Aceitar a inércia e mediocridade.
Ultimamente eu tenho buscado muito mais essas duas coisas do que o frenesi do sucesso (sucesso é outro conceito extremamente opressor, pois é relativo demais).
Enfim. Amo vcs.
Dé
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